Mesmo protegida desde 2020, onça-pintada segue no centro da COP15

A onça-pintada já entrou oficialmente na lista de espécies protegidas pela Convenção sobre Espécies Migratórias em 2020, mas isso não encerrou o debate sobre sua sobrevivência. Ao contrário. Em Campo Grande, durante a COP15, o animal voltou ao centro das discussões como exemplo de uma espécie que continua dependendo de articulação internacional, proteção de habitat e redução de conflitos com humanos para ter futuro. A conferência da Convenção sobre Espécies Migratórias é realizada na Capital entre 23 e 29 de março, e o Brasil ocupa a presidência do encontro pelos próximos três anos.

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Ao responder por que a onça segue em pauta mesmo após a inclusão nos anexos da convenção, o presidente da COP15 e secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, apontou que a listagem foi um passo importante, mas insuficiente por si só. Segundo ele, a espécie exige cooperação contínua entre os países porque circula por diferentes territórios e depende de conectividade ecológica para sobreviver.

“Esse animal necessita de grandes áreas conservadas. Ele é o que a gente chama de topo de cadeia”, afirmou. Na prática, o raciocínio é simples: para continuar existindo, a onça precisa de território amplo, oferta de presas e ambiente preservado. É justamente por isso que a proteção da espécie não se resolve apenas com uma decisão formal da convenção.

A onça-pintada foi incluída nos Anexos I e II da Convenção sobre Espécies Migratórias na COP13, em 2020, o que reconheceu oficialmente a necessidade de conservação coordenada entre países. Depois disso, na COP14, a convenção formalizou a Iniciativa Jaguar, criada para reforçar a cooperação internacional, enfrentar a perda de habitat, a fragmentação das áreas naturais e o conflito entre fauna silvestre e atividade humana.

É esse o ponto que mantém a espécie em evidência agora. Segundo Capobianco, não basta que um país preserve parte do território se os demais não fizerem o mesmo esforço. “Não adianta um país agir positivamente se os outros não agem”, disse. A fala resume o espírito da própria convenção, criada justamente para articular respostas conjuntas à proteção de animais que cruzam fronteiras.

Ao longo da COP15, a onça aparece como um símbolo visível desse desafio. A espécie chama atenção do público, mobiliza interesse e ajuda a traduzir, de forma concreta, o que significa falar em conectividade ecológica. O próprio governo federal tem usado a COP15 para defender que espécies migratórias exigem ciência compartilhada, compromissos multilaterais e preservação dos habitats e rotas de deslocamento.

Capobianco também destacou que a proteção passa por outro eixo além da preservação territorial: mudar a relação da sociedade com o animal. Segundo ele, ainda é preciso ampliar a mobilização pública para evitar a caça e o abate da onça, muitas vezes associados à percepção de ameaça. Na avaliação do presidente da COP15, esse trabalho de conscientização precisa caminhar junto com a recuperação de áreas degradadas e a manutenção de grandes áreas conservadas.

A COP15, portanto, recoloca a onça-pintada em discussão não porque a proteção internacional tenha falhado, mas porque a listagem de 2020 abriu uma etapa que ainda está em construção. O animal já entrou no radar formal da convenção. O desafio agora é transformar esse reconhecimento em corredores protegidos, cooperação efetiva entre países e medidas concretas para reduzir as pressões sobre a espécie. É esse intervalo entre a norma e a realidade que explica por que a onça continua sendo assunto em Campo Grande.

 

 

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