A entrada em vigor do acordo União Europeia-Mercosul, nesta última sexta-feira, (1º), abre uma nova fase para o comércio entre os dois blocos e deve produzir efeitos diferentes na economia brasileira. Enquanto setores ligados ao agronegócio, à mineração e a parte da indústria exportadora enxergam espaço para crescer, segmentos da indústria de transformação já se preparam para enfrentar concorrência mais forte de produtos europeus no mercado interno.
O saldo esperado é positivo, mas desigual. A redução de tarifas amplia o acesso de produtos brasileiros a um mercado amplo e exigente, ao mesmo tempo em que facilita a entrada de mercadorias europeias no País com custos menores. Na prática, o acordo cria oportunidades para quem exporta, mas também aumenta a pressão sobre áreas menos competitivas da economia nacional.
Entre os setores com perspectiva mais favorável estão alimentos, commodities e produtos agroindustriais. Itens como café solúvel, suco de laranja, frutas, madeira processada e cacau aparecem entre os que podem ganhar espaço na Europa. Segundo estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, a agroindústria brasileira deve ser a principal beneficiada, com crescimento extra de 2% em 17 anos. Dentro desse grupo, carnes de aves e suínos despontam como o segmento com maior impulso, com previsão de alta de 9,2%.
Na indústria, o cenário é mais dividido. Empresas que dependem de máquinas, equipamentos e insumos importados podem reduzir custos de produção com a queda das tarifas. Por outro lado, fabricantes nacionais dessas mesmas áreas terão de competir com produtos europeus mais baratos. O risco é maior justamente na indústria de transformação, que já registra déficit comercial com os países da União Europeia.
No ano passado, esse saldo negativo chegou a US$ 26 bilhões, segundo representantes do setor. Por isso, parte dos economistas vê no acordo a possibilidade de aprofundar o processo de desindustrialização, caso o Brasil não avance em produtividade, modernização e adaptação regulatória.
Ainda assim, entidades industriais evitam tratar o acordo apenas como ameaça. A avaliação é que ele também pode estimular investimentos, facilitar intercâmbio tecnológico e forçar modernização de processos produtivos. Além do acesso a um mercado de 27 países, empresas brasileiras terão de se adequar a exigências mais rígidas em temas como rastreabilidade, governança ambiental e relações trabalhistas.
Entre os segmentos industriais citados como beneficiados, o setor calçadista aparece com destaque. A projeção é de crescimento de 3,2%. Hoje, calçados brasileiros enfrentam tarifas de até 17% para entrar na União Europeia. Com a redução gradual desses impostos, o setor vê a chance de ampliar participação em um mercado que importa cerca de 40% da produção mundial de sapatos.
Já o setor de eletroeletrônicos deve sentir efeitos mistos. A estimativa é de retração de 1,6% para equipamentos elétricos e de alta de 0,3% para eletrônicos. Representantes da área destacam, porém, que o cronograma de redução tarifária dá algum fôlego à indústria nacional, já que os produtos europeus só terão tarifa zerada no Brasil entre 10 e 15 anos, enquanto os brasileiros chegarão com tarifa zero à Europa em prazo menor, de quatro anos em alguns casos.
Também há ganhos previstos para setores sem produção nacional relevante. Itens com isenção imediata, como motores de aviões, alguns produtos químicos e medicamentos complexos, tendem a beneficiar consumidores e empresas que dependem desses insumos, como a Embraer.
O acordo União Europeia-Mercosul, portanto, não produz vencedores e perdedores absolutos. Ele amplia oportunidades para setores já competitivos e expõe fragilidades de áreas que há anos enfrentam dificuldade para competir. O efeito final dependerá menos do texto assinado e mais da capacidade do Brasil de aproveitar o novo acesso a mercado sem perder ainda mais espaço dentro de casa.
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